Anteontem, é, exatamente anteontem, meus cabelos eram e estavam vibrantes, negros, lindos e ondulados do tipo “maracanã” (daqueles que muitos homens da época comentavam ou sonhavam tê-los e as mulheres admiravam).
Todos, com raríssimas exceções, admiravam, ele e eu, especialmente as moiçolas da época com as cobiças naturais e corriqueiras.
Não me cansava de olhar-me no primeiro espelho magicamente surgido à minha frente tal qual Narciso se espelhava na água.
Minhas mãos, creio, se aproximavam da perfeição e se harmonizavam no meu corpo com meus pés e com as minhas coxas grossas e bem torneadas pelos exercícios atléticos que esporeava ludicamente.
Era eu, como tantos outros mortais detentores desses atributos – sem cabotismo algum ou meias verdades - cobiçado por tantas...!.....!tantas........!e tantas......!não sei das quantas .......!
Ontem, é.........!, ontem.... as coisas mudaram. Meus cabelos esbranquiçaram, minhas mãos sinalizaram as primeiras rugas, minhas pernas já não tinham mais as mesmas firmezas e torneamento de anteontem.
Hoje quase ninguém nota mais a minha presença. Ninguém mais me olha ou me vê, onde quer que eu esteja, exceto, as poucas exceções de meus dependentes e alguns circunstantes do meu dia-a-dia. As primeiras, quiçá pela dependência disso ou daquilo, cuja independência, de algum modo, vislumbram rapidamente; a segunda porque não há como disfarçar os olhos de mera curiosidade.
O esquecimento é geral, indisfarçável, cristalino, translúcido, inegável, firme e verdadeiro.
E hoje......! É.....! Hoje estou velho, muito velho e não há tintura alguma que possa sabotar ou disfarçar os meus cabelos brancos e a minha vetustez, até porque as rugas que – sem pedir licença alguma – invadiram o meu corpo, cujas pregas, norteando-o vão do meu rosto ao meu peito, passando pela minha barriga, coxas, em direção aos meus pés, realçando e evidenciando todo esse vinco de pele dobrada.
Estou velho, assumo, muito velho pela faina do tempo. Não detenho mais os mesmos atributos físicos de ontem, menos ainda os de anteontem, sobretudo os externos, a libido inclusive.
Ah...........! Resta-me apenas no meu corpo físico – do que as rugas não foram capazes de alcançar – o meu coração, é....! o meu coração que permanece intacto, incólume, como se tivesse nascido hoje, aqui, agora que, no tempo, ainda em tempo, dentro do tempo e na parábola do tempo, vos passo as mãos para que, no tempo que é concedido a cada um de nós, possais dar a ele o destino que mais lhe aprouver, tempestivamente.
Salvador, 01 de maio de 2011
Polibio Hélio Lago
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